A Cabra #6

Fotografias publicadas n’A Cabra, 176, com o artigo «Quando a cidade que nunca pára, pára para estudar», escrito por Martha Mendes.


«Quando os dias que o calendário marca coincidem com os dias que o plano de exames determinou, Coimbra transforma–se. A cidade que nunca pára, com convívios de estudantes, trajes pela Praça da República e uma alta cheia de imagens de juventude, sai das ruas e recolhe a casa para se concentrar no estudo.

Os cartazes de cores fortes e caras bonitas a anunciar festas de estudantes deixam de se ver pela cidade. A noite passa a ser dos que vagueiam, sem responsabilidades académicas. Os bares, habituados a esta época do ano, já sabem com o que contar: durante uns tempos vão ser poucas as capas negras a pedir imperiais ao balcão.

Agora é tempo de abrir os livros, sublinhar o essencial dos apontamentos e procurar na bibliografia indicada pistas para esclarecer as dúvidas de última hora.

Uns alunos desesperam, ao tomar consciência da quantidade de matéria leccionada durante o semestre; outros enfrentam os exames com segurança. Mas ninguém fica indiferente àquela época, no fim de cada semestre, em que há uma chamada para apurar o que se sabe.

De folhas de exame e caneta na mão à espera de ouvir chamar o nome, os alunos agrupam–se à porta da sala. Hoje é dia de exame.


Os “habitués” da Associação Académica de Coimbra (AAC) fogem do agitado bar do piso térreo e dos tentadores corredores das secções, e assentam arrais nas cantinas e salas de estudo. Alinhados em filas de mesas e cadeiras brancas, os universitários misturam–se. Aqui não há divisões por licenciatura, nem sequer por faculdade. Estão todos para o mesmo: a linguagem do momento da avaliação é universal.

Lá dentro o ambiente é sempre igual em todas as épocas de exame Não há cadeiras vagas e o trabalho prolonga–se noite fora. As matérias são escritas e reescritas mil vezes como que para treinar a caneta, e na esperança de tatuar a memória.

Lado a lado com os que chegaram agora a esta etapa da vida académica, e ainda se espantam por não existirem manuais de consulta, estão os finalistas. Dezenas de vezes avaliados, temem ainda. Porque esta é a última vez. E a nota que daqui a uns tempos vai sair na pauta tem agora mais impacto do que alguma vez teve. E porque o fado parece rezar a verdade: Coimbra tem mesmo mais encanto na hora da despedida.

É já esta saudade que parece sentir o jovem, carregado de códigos jurídicos, que num corredor da AAC, comenta: “parece impossível que este é o meu último exame”. No ar cheira à nostalgia do que ficou para trás.

Todos contam o tempo que falta para acabarem os exames. Os mais novos, com a ansiedade de quem quer voltar para a boémia académica, que estão agora a começar a experimentar. Os mais velhos com a ansiedade de quem sabe que depois desta fase se segue uma outra mais incerta, uma escada que vão começar daí a pouco a percorrer com passo inseguro.


Nesta altura, em que os livros são a grande prioridade dos estudantes de Coimbra, a gare dos autocarros está tão vazia como a estação dos comboios. A cidade parece cercada: ninguém sai.

À marcante imagem dos estudantes carregados de malas, de partida para a terra ao fim–de–semana, sobrepõe–se agora a voz que se ouve nos corredores, mais vazios do que é habitual, a anunciar comboios que os estudantes não vão apanhar nos próximos tempos.

Os que têm Coimbra como cidade de empréstimo adoptam– na por completo durante uns tempos. “Esquecem” os pais, os irmãos, os amigos. O quarto que é mesmo deles. A namorada. O namorado. Por uns tempos, estão para ficar.

Já que ficam, colegas de curso e amigos reúnem–se nos cafés da cidade para discutirem as matérias que mais assustam. Quem se dedicou pouco ou nada às aulas, aproveita estes dias para passar apontamentos emprestados por aqueles que nunca faltam.

Numa mesa do antigo Café de Santa Cruz uma rapariga, cujo rosto está praticamente tapado por um monte de livros, suspira com ar de desespero. Escreve, pousa a caneta. Pára para pensar. Rói as unhas. Volta a escrever. O medo do fracasso acentua–se durante estes dias.

A rapariga olha distraída para o monte de livros, porque a vida lá fora ainda acontece e há outras coisas em que pensar, outras coisas que desejar, mesmo em época de exames. Pede mais um café, para se sentir acompanhada. Pelo monte de livros que se vê na mesa que ocupa, a caminhada vai ser longa.


Depois do estudo segue–se a hora da verdade. À porta da sala alguém chama, nome a nome, a longa lista de inscritos para exame. Os nomes ouvem–se e, nalgumas faculdades, ecoam ao longo do corredor. Cada nova chamada é uma batida acelerada no coração de quem aguarda cá fora, sem saber o que o enunciado lhe reserva.

O funcionário da faculdade dá as respectivas indicações: “Vão entrando, um a um, e deixem as malas e as pastas à entrada da sala”. Não vá a tentação da cábula ser mais forte.

Os alunos cumprem e vão entrando nas salas que, qual Adamastor sobre as Naus, lhes engole os medos e as dúvidas. Chegou a hora da verdade. Lá dentro o professor começa a distribuir os enunciados, enquanto faz algumas recomendações. Seguem– se duas horas de teste.

Faltam ainda uns minutos até a lista chegar ao nome da rapariga que relê uma última vez os apontamentos de alguém. Com um ar perdido, a aluna vai tentando perceber com que malhas se tecem as matérias que parece estar a ler pela primeira vez.

Tarde demais. Já chamaram por si. Levanta o braço, para assinalar a presença, e devolve os apontamentos ao colega. “Vamos lá a isto”, diz–lhe. Ao seu jeito, também ela sente que aquela é a hora da verdade.»

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