“Prostituta”

Humilde homenagem a um dos primeiros mestres da fotografia de rua.

Humilde homenagem a um dos primeiros mestres da fotografia de rua.
Robert Frank reservou o seu lugar na história da fotografia com o livro The Americans, publicado em 1958. Nascido em Zurique, em 1924, Frank iniciou a sua jornada americana aos 23 anos, ao imigrar para Nova Iorque. Em 1955, e com a ajuda da sua principal influência artística ― Walker Evans ― partiu à descoberta do país numa viagem que resultaria em 28.000 registos fotográficos. Destes, 83 originaram a sua obra de referência.

A câmera de Frank registou as tensões que se viviam nos EUA do pós-guerra, em que a segregação racial e as diferenças de classes se destacavam. O estilo fotográfico, divergente das técnicas então em voga, e o cepticismo que marcava as suas imagens de um país em crise de valores, contribuíram para uma má recepção do livro. Mais tarde, a aceitação gradual de The Americans reconheceu-o como uma obra seminal da fotografia americana. Trolley é um dos melhores exemplos de composição e significação social presentes neste livro.
Recentemente, a Steidl lançou uma edição comemorativa dos 50 anos da primeira publicação, disponível aqui.
Há quatro décadas atrás, decorria o mês de Agosto de 1968, o exército soviético aniquilava impiedosamente as esperanças de mudança democrática do povo checoslovaco. Os invasores, outrora libertadores deste país 23 anos antes, penetravam nas principais cidades e reprimiam todo e qualquer acto de rebelião com as suas dezenas de tanques. A “Primavera de Praga”, breve período de liberalização política iniciado com a eleição de Alexander Dubček no ínicio desse ano, terminava abruptamente.
Ladislav Bielik (1939 – 1984), um fotojornalista local, garantiu que a resistência do seu povo não cairia no esquecimento.

Esta fotografia depressa chegou à impressa ocidental, tornando-se num clássico instantâneo. Foi publicada inúmeras vezes, ganhou prémios em competições internacionais e chegou a ser considerada uma das 100 melhores fotografias do século passado. No entanto, tudo isto aconteceu sem a devida menção ao seu autor, situação perpetuada durante anos através da utilização de nomes falsos e legendas incorrectas.
Bielik efectou cerca de 300 registos dos acontecimentos vividos no dia 21 de Agosto na cidade de Bratislava, actualmente capital da Eslováquia. Na altura da sua morte, vítima de acidente, a própria família desconhecia o paradeiro destas imagens. Incentivados por um colega de Ladislav, uma busca pelos negativos deu os seus frutos. Desde então, a família Bielik tem batalhado pelo devido reconhecimento do trabalho deste fotógrafo, por vezes em tribunais em consequência da utilização abusiva das suas imagens por muitos jornais nacionais e internacionais, ainda hoje em dia.
Entre as várias distinções atribuídas, salienta-se o World Press Photo de 1968-69.
Kevin Carter (1960-1994) foi um fotojornalista sul-africano. Pertenceu ao Bang-Bang Club, um colectivo de fotógrafos sul-africanos empenhados em expôr a brutalidade do Apartheid. Embora o seu trabalho não circulasse regularmente na imprensa nacional, devido ao rígido controlo exercido pelo governo de então, algumas das suas imagens atingiram grande visibilidade na imprensa internacional.
Carter deslocou-se ao Sudão em Março de 1993, juntamente com João Silva, amigo e colega de profissão, para fotografar o movimento rebelde neste país atingido pela fome. Imediatamente após a aterragem do avião da ONU em que viajavam, Carter começou a fotografar os habitantes vítimas de fome extrema. Um som angustiante atraíu-o ao local onde conseguiria a imagem que lhe trouxe reconhecimento mundial.

Inicialmente publicada no New York Times em 26 de Março de 1993, a fotografia da menina em sofrimento valeu a Kevin Carter o Pulitzer Prize por Feature Photography em Maio de 1994. Embora duas versões substancialmente diferentes subsistam sobre a maneira mais ou menos ética como registou este momento, certo é que esta imagem entrou directamente para a história do fotojornalismo moderno.
Carter viria a suicidar-se apenas dois meses após a distinção, deixando as seguintes palavras no seu diário: «depressed… without phone… money for rent… money for child support… money for debts… money!!!… I am haunted by the vivid memories of killings & corpses & anger & pain… of starving or wounded children, of trigger-happy madmen, often police, of killer executioners…»
Para mais informações, consulte as seguintes ligações:
Wikipedia: Kevin Carter;
Wikipedia: Bang-Bang Club;
A vida e a morte de Kevin Carter.
Sebastião Salgado é um dos fotógrafos mais famosos do mundo desde a década de 80.

Nasceu a 8 de Fevereiro de 1944 em Aimorés, uma pequena localidade no estado de Minas Gerais, Brasil, com 16.000 habitantes. Na década de 40, mais de 70% desta região encontrava-se coberta por vegetação da Floresta Atlântica. Nessa altura, a floresta costeira do Brasil era duas vezes maior que a França; hoje em dia está reduzida a 7% da dimensão de então, e na terra natal de Salgado o cenário é ainda mais devastador, restando apenas 0,3%.

Depois de completar o ensino secundário em Vitória, Salgado estudou economia entre 1964 e 67. Fez mestrado na mesma área na Universidade de São Paulo e na Vanderbilt University (EUA). Após a conclusão do doutoramento em economia pela Universidade de Paris, em 1971, trabalhou para a Organização Internacional do Café até 1973.

Em 1973, quando levou a máquina fotográfica da sua mulher, Lélia, para uma viagem a África, Salgado decidiu trocar a economia pela fotografia. Trabalhou para as agências Sygma (1974-1975) e Gamma (1975-1979). Em 1979 entrou para a Magnum Photos, permanecendo na organização até 1994, ano em que fundou a Amazonas Images, juntamente com a sua mulher. De Paris, onde vivia, Salgado viajou para cobrir acontecimentos como as guerras em Angola e no Sahara espanhol, o sequestro de israelitas em Entebbe e o atentado contra o presidente norte-americano Ronald Reagan. Paralelamente, passou a dedicar-se a projectos de documentários mais elaborados e pessoais.

Viajando pela América Latina durante sete anos (1977-1984), Salgado viajou a pé até povoamentos longínquos. Neles capturou as imagens para o livro e a exposição Outras Américas (1986), um estudo das diferentes culturas da população rural e da resistência cultural dos índios e dos seus descendentes no México e no Brasil. Nos anos 80, trabalhou 18 meses com o grupo francês Médicos Sem Fronteiras durante a seca na região do Sahel, em África. Na viagem produziu Sahel: O Homem em Pânico (1986), um documento sobre a dignidade e a perseverança das pessoas nas mais extremas condições. Entre 1986 e 1992, fez Trabalhadores (1993), um documentário fotográfico sobre o fim do trabalho manual em grande escala em 26 países. Em seguida, produziu Terra: Luta dos Sem-Terra (1997), sobre a luta pela terra no Brasil, e Êxodos e Crianças (2000), retratando a vida de refugiados e emigrantes de 41 países. Nos últimos anos, Salgado tem levado a cabo um projecto de longa-duração de fotografia de natureza, intitulado Genesis. Recentemente, publicou África, em parceria com o escritor africano e seu amigo Mia Couto.

Sobre a sua postura na fotografia e na vida, Sebastião Salgado afirmou numa entrevista a Carole Naggar, em 2000, que a «minha maior esperança é provocar um debate sobre a condição humana do ponto de vista dos povos de todo o mundo. Minhas fotografias são um vector entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece. Espero que a pessoa que entrar numa exposição minha não saia a mesma. (…) Pessoas comuns podem ajudar muito, não doando bens materiais, e sim participando, envolvendo-se no debate e pensando no que acontece no mundo. É o mais importante a fazer para evitar que as mesmas coisas se repitam.»
Para saber mais:
Página oficial de Sebastião Salgado
The Guardian: Genesis
Amazonas Images
Com este post inauguro uma série de mini-biografias das personalidades mais relevantes da fotografia mundial, que agruparei na categoria Fotógrafos. Como não poderia deixar de ser, começarei por Henri Cartier-Bresson, amplamente reconhecido como o pai do fotojornalismo moderno, e o meu fotógrafo favorito não só pelo estilo de fotografia de rua que impulsionou, como pela sua maneira peculiar de viver esta arte.

Nascido em 1908 em Chanteloup, Seine-et-Marne, perto de Paris, desenvolveu um grande fascínio pela pintura no início da sua vida, particularmente pelo Surrealismo. Em 1932, após passar um ano na Costa do Marfim, descobriu a Leica – a sua câmara de eleição – e assim despertou para uma longa paixão pela fotografia que o reconheceria como um dos melhores fotógrafos do século XX.
Tomado prisioneiro de guerra em 1940, conseguiu escapar na sua terceira tentativa, em 1943, e entrou para uma organização clandestina de ajuda a prisioneiros e fugitivos. Em 1945, fotografou a libertação de Paris juntamente com um grupo de jornalistas profissionais e filmou o documentário Le Retour.

Em 1947, com Robert Capa, George Rodger, David Seymour e William Vandivert, fundou a conceituada agência fotográfica Magnum. Após três anos a viajar pelo Oriente, regressou à Europa, em 1952, onde publicou o seu primeiro livro, Images à la Sauvette (publicado em inglês com o título The Decisive Moment, um conceito que para sempre ficaria ligado à sua maneira de ver a fotografia).
Cartier-Bresson explicou a sua abordagem à fotografia nestes termos: «Para mim, a máquina fotográfica é um bloco de notas, um caderno de desenhos, um instrumento de intuição e espontaneidade, o mestre do instante que, em termos visuais, questiona e decide simultaneamente. É pela economia de meios que chegamos à simplicidade de expressão.» Dizia que a grande fotografia é um presente do acaso!
Trabalhou quase exclusivamente a preto e branco, equipado com uma Leica, uma 50 mm e, ocasionalmente, uma grande-angular para paisagens. Não revelava as suas imagens, afirmando que nunca esteve interessado no processo da fotografia. Era contra o uso do flash, que seria o equivalente a «chegar a um concerto com uma pistola na mão».

Ao longo da sua vida, fotografou personalidades como Samuel Beckett, Truman Capote, Albert Camus, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Pablo Neruda, Henri Matisse, Malcolm X, entre muitos outros.
A partir de 1968, reduziu a sua actividade fotográfica, passando a dedicar-se ao desenho e à pintura. Em 2003, com a sua mulher e filha, criou a Fundação Henri Cartier-Bresson em Paris, por forma a garantir a preservação do seu trabalho. Cartier-Bresson recebeu inúmeros prémios e distinções durante a sua vida. Em 2004, veio a falecer na sua casa em Céreste, com 95 anos.

«For me the camera is a sketch book, an instrument of intuition and spontaneity, the master of the instant which, in visual terms, questions and decides simultaneously. In order to “give a meaning” to the world, one has to feel involved in what one frames through the viewfinder. This attitude requires concentration, discipline of mind, sensitivity, and a sense of geometry. It is by economy of means that one arrives at simplicity of expression.
To take a photograph is to hold one’s breath when all faculties converge in a face of fleeing reality. It is at that moment that mastering an image becomes a great physical and intellectual joy.
To take a photograph means to recognize – simultaneously and within a fraction of a second– both the fact itself and the rigorous organisation of visually perceived forms that give it meaning.
It is putting one’s head, one’s eye, and one’s heart on the same axis.»
Para saber mais:
Fundação Henri Cartier-Bresson
Magnum Photos